Lava Jato, de onde veio e para onde vamos
Deltan
Dallagnol e Orlando
Martello, Folha de São Paulo
Num
longo artigo no domingo 31 de outubro, os procuradores Deltan Dallagnol e Orlando Martello defenderam a Lava Jato com um discurso político completamente parcial
e muitas vezes apenas repetindo os métodos de uma investigação politizada desde
a sua gênese: A Lava jato veio da cabeça do juiz Sérgio Moro que mais de dez
anos atrás escreveu sobre a Operação Mãos Limpas e deixou no texto as digitais
de seu animus e seu modus operandi. Segue o artigo pontuado por minhas
observações:
DALLAGNOL
E MARTELLO - A equipe da Lava Jato formou-se para o combate a crimes
financeiros e de lavagem de dinheiro praticados por doleiros como Alberto
Youssef. Jamais se imaginou, inicialmente, topar com um esquema de corrupção.
ALFREDO HERKENHOFF: Ninguém em sã
consciência jamais teve dúvida de que no Brasil há inúmeros esquemas de
corrupção. A operação criminal seletiva não foi formada para combater crimes
financeiros. Foi para destruir um projeto político que vinha derrotando o
projeto neoliberal ultrapassado do PSDB.
DALLAGNOL
E MARTELLO - Foi uma surpresa quando se reuniram provas da lavagem de cerca de
R$ 26 milhões ligados a um contrato da refinaria Abreu e Lima. Meses depois,
quando Paulo Roberto Costa decidiu colaborar, sua narrativa foi estarrecedora:
a confissão foi muito além daquele contrato.
AH: Toda grande
investigação naturalmente surpreende com as descobertas que faz. A primeira
frase é pura tautologia. A Lavajato descobre muito mais pelas delações obtidas
mediante coerção da prisão preventiva, ou da simples ameaça de prisão
preventiva, ou da simples certeza de que os delatores entregam os nomes que
interessam aos investigadores e ainda são liberados ricos com suas
tornozeleiras.
DALLAGNOL
E MARTELLO - Propinas eram pagas nos grandes negócios da Petrobras. Estávamos
falando, como descobriríamos mais tarde, de R$ 6,2 bilhões só de subornos,
valor que seria reconhecido pela estatal. Mas as investigações - e o prejuízo
aos cofres públicos- não pararam por aí.
AH - Propinas
sempre foram pagas nos grandes negócios da Petrobras. Os percentuais de um
contrato desviados diminuíram na Era Lula se comparados com os percentuais dos
governos anteriores. E quem disse isso foi Ricardo Semler, empresário e
hierarca do PSDB na própria Folha, num artigo de novembro de 2014, intitulado
"Nunca se roubou tão pouco". A cifra de seis bilhões se
correspondendo a contratos totalizando 200 bilhões confirmaria a informação de
Ricardo Semler de que 3 por cento passou a ser o padrão dos negócios entre
Poder Público e setor privado no Século 21. O mesmo empresário escreveu que nos
anos 90 era em torno de dez por cento.
DALLAGNOL
E MARTELLO - Como observou o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal
Federal, "onde você destampa tem alguma coisa errada". Removidas as
tampas, emergiram propinas nas diretorias da Petrobras, nos ministérios do
Planejamento e da Saúde, na Caixa Econômica Federal e na Eletronuclear.
AH - A frase do
magistrado do STF replica Bill Clinton às vésperas de uma nova visita ao Brasil
em meados dos anos 90: "Ah, vamos ao Brasil semana que vem? Aquela terra
da corrupção endêmica". Portanto não há nenhuma revelação na frase de
Barroso, que integra um tribunal também manchando seu nome por abusos e
desrespeito à Constituição. Citar corrupção na Petrobras, nos ministérios, na
Caixa e na Eletronuclear é exatamente um exemplo clássico de dois pesos. As dez
maiores empreiteiras que fizeram negócios com essas instituições estatais ou
com mediação dessas instituições são as mesmas que durante 22 anos fizeram negócios
com os governantes tucanos do Palácio dos Bandeirantes e com as diretorias dos
vários órgãos envolvidos em empreendimentos - obras e serviços - realizados no
Estado de São Paulo. Mas mais uma vez, se tem tucano, não tem Lava jato nem em
Curitiba e nem na casa do Dr. Janot.
DALLAGNOL
E MARTELLO - A sistemática era a mesma. Dirigentes eram escolhidos por partidos
e políticos com o compromisso de arrecadar propinas. Currículos e critérios
técnicos ficaram em segundo plano. Nesse esquema, empresários pagavam agentes
públicos (dirigentes e políticos) por meio de operadores financeiros, que
faziam o dinheiro sujo chegar com aparência limpa aos destinatários.
AH – Essas frases acima
estão corretas enquanto descrição de uma mecânica operacional de uma praxe.
Quem escolhe os nomes são os políticos mais poderosos dos partidos. Os
governantes apenas ratificam. O engenheiro Delcidio, por exemplo, foi nomeado
diretor de Energia e Gás da Petrobras no segundo mandato de FHC. Nesta época, o
engenheiro tucano se tornou amigo de um funcionário concursado da estatal
chamado Nestor Cerveró que assim começava a subir na vida. O Paulo Roberto
Costa também começou a subir na estatal no tempo anterior a Lula.
DALLAGNOL
E MARTELLO - Até o momento, em primeira instância, as investigações levaram a
52 acusações contra 241 pessoas, por crimes como corrupção, lavagem e
organização criminosa.
Dentre
elas, 110 foram condenadas a penas que ultrapassam mil anos de prisão. O
ressarcimento soma mais de R$ 3,6 bilhões -antes da Lava Jato, virtualmente
nenhum caso recuperou mais de R$ 100 milhões, e a regra é não reaver um tostão
sequer.
No
entanto, talvez o maior impacto da Lava Jato tenha sido a responsabilização
igualitária dos criminosos, pouco importando cargo ou bolso. Perseguiu-se a
"grande corrupção", aquela que deslegitima as instituições e até
então era imune ao Judiciário.
AH - Os números de
acusados parecem enormes, mas são de fato pequenos se comparados com os números
obtidos pela Operação Mãos Limpas no período também de dois anos. E isso talvez
decorra de dois fatores: Os investigadores italianos foram mais eficientes e
não foram seletivos. O ressarcimento de quase 5 bilhões tem sido mostrado por
analistas de diversas áreas como um péssimo negócio para o Brasil se se
considerar a instabilidade política agravando o quadro da economia. A Lava Jato
está causando um grande prejuízo econômico. O próprio premier japonês afirmou
isso na cara de Temer, Meirelles, Serra e Moreira Franco quando estiveram em
Tóquio em meados do mês de outubro. E quem relatou o sabão do chefe do governo
do Japão contra a Lava Jato foi uma jornalista enviada pela Folha a Tóquio. Mas
o mais grave nessa operação politizada é dizer que persegue entre aspas a
grande corrupção. É o contrário disso. Persegue um grande estadista que fortaleceu
a PF e o MP. Uma investigação que faz exatamente o contrário do que seria uma
responsabilização igualitária. Soa ridículo esse argumento. Operação até agora
blindando os verdadeiros grandes corruptos nunca antes nem agora alcançados
pela Justiça.
DALLAGNOL
E MARTELLO - A corrupção de que tratamos afeta a eficiência da gestão pública,
drena recursos de serviços essenciais, desequilibra o processo democrático e
violenta os princípios republicanos. É a corrupção que mata pela fila do SUS,
pela falta de manutenção das estradas, que nutre a violência pela ausência de
políticas públicas e que atrasa o país pela deficiência da infraestrutura.
AH - Aqui os dois
fogem de suas atribuições e deitam falação política que não lhes diz respeito,
a não ser que estivessem em disputa eleitoral ou em campanha eleitoral. Pura
oratória, sinal de fraqueza na investigação, palavras que cabem a políticos ou
mesmo a advogados. Investigadores não merecem palanque.
DALLAGNOL E MARTELLO - Como o mensalão, a Lava Jato tem se mostrado excepcionalmente diferente em relação à impunidade. É a exceção que confirma a regra.
Precisamos
reconhecer que o relativo sucesso é fruto de uma multidão de fatores, que
incluem um trabalho coordenado, inovador e profissional de vários órgãos, o
amadurecimento de leis e instituições e... muitos lances de sorte. Foi valioso
ainda o apoio da sociedade.
AH - Sim, é a exceção que confirma a regra, pena
que confirma a exceção com uma investigação de exceção. E na multidão de
fatores mencionados como motivo do relativo sucesso está um que é fundamental
para compreender que a Lava Jato é uma arma político-partidária nas mãos da
chamada grande mídia. O modo como o telejornalismo e os impressos paulistas
exibem os atos e os vazamentos da Lava Jato é que produzem esse apoio da
sociedade. Leis não amadurecem, são respeitadas, desrespeitadas ou são
reformadas pelo Legislativo. Instituições, sim, estas envelhecem, algumas se
tornam velhacas, golpistas.
DALLAGNOL
E MARTELLO - O avanço se deu sobre um tripé formado por colaborações premiadas,
cooperações internacionais e transparência.
As
delações - sempre ponto de partida, jamais de chegada - permitiram a expansão
exponencial da investigação. Embasaram buscas e apreensões, colheita de
depoimentos e quebras de sigilo fiscal, bancário e telefônico; as transações
bancárias rastreadas somam mais de R$ 1 trilhão. As cooperações internacionais
- mais de 120 intercâmbios com 34 países - permitiram alcançar documentos de
contas secretas no exterior usadas há décadas.
AH - Transparência
coisa nenhuma. Delações premiadas, sim, mas muitas obtidas sem que os acusados
ou suspeitos estivessem em condições físicas e psicológicas para atender ao que
estabelece a lei de colaboração premiada, que é a espontaneidade. A delação em
Curitiba é o fim da tortura da prisão. Eu livro um tucano, ferro uma democracia
e ganho uma prisão doméstica com tornozeleira. Sim, foi graças ao MP da Suíça
que Eduardo Cunha escapou da blindagem da Lava Jato e passou a exibir o lado
sujo ou seletivo da Justiça brasileira. Mas muito bom dizer que contas secretas
no exterior são usadas há décadas. Os que estão por trás do golpe e que hoje
exercem o Poder Executivo são os que estavam havia décadas no poder antes da
vitória de Lula em 2002.
DALLAGNOL
E MARTELLO - Por fim, a realização de entrevistas coletivas, o lançamento do
primeiro website de um caso criminal do país, a assistência de assessores de
comunicação e a publicidade dos processos eletrônicos garantiram o que Albert
Meijer denominou transparência virtual, facilitando o acesso à informação, o
acompanhamento da investigação e, principalmente, propiciando o controle
social.
O debate
transcendeu o meio jurídico e, para nossa sorte, ganhou o gosto popular.
AH - As
entrevistas coletivas dos investigadores, quase sempre nas horas subsequentes
de uma fase de buscas e prisões na Lava jato, não garantem nem acesso à
informação e nem propiciam o controle social. Ao contrário, são apenas
propaganda para a operação que é criminal só contra um segmento do espectro
político. Justiça não pode transcender o meio jurídico. Para sorte dos
procuradores a operação caiu no gosto popular? Ora, juiz, polícia e
investigador não têm que ter gosto popular a favor. Aliás, em nenhuma
democracia se permite transmissão ao vivo de sessão de ação penal. A exibição,
o gosto popular, o controle social, isso arrasa com a capacidade de magistrados
em qualquer sociedade. Nos EUA, por exemplo, é proibido até tirar uma foto num
tribunal julgando acusado de morte ou roubo. Aqui o Supremo saiu ao vivo todo
dia no Mensalão. Um horror.
DALLAGNOL
E MARTELLO - O acervo probatório produzido é imenso. Como a usual tática dos
investigados de negar os fatos já não funcionava, passaram a difundir a falsa
ideia de abusos na Lava Jato.
Tal noção
não se sustenta. Foram feitas somente prisões excepcionalmente necessárias.
Apenas 9% dos acusados estão presos -e só 3% estão encarcerados sem condenação.
Diante da
inusitada perspectiva de punição, a colaboração passou a ser a melhor
estratégia de defesa: 70% delas foram feitas com réus soltos, e diariamente
recusam-se novos acordos por não se vislumbrar ganho efetivo.
Observe-se
ainda que, se "abusos" ou "excessos" existissem, os
tribunais os corrigiriam. Mesmo contestados por grandes bancas advocatícias em
três cortes, os atos do juiz Sergio Moro foram confirmados em mais de 95% dos
casos.
AH - O acervo é
imenso, mas não exibiu nenhuma prova cabal nem contra Dilma e nem contra Lula.
Bisonha a afirmação de que é tática de investigados difundir a falsa ideia de
abusos na Lava jato. Quem diz que há uma profusão de casos concretos de abusos
de poder não são investigados, mas sim são juristas, advogados, outros juízes,
outros procuradores, tanta gente, mais e mais gente, muitos jornalistas,
notadamente os milhares que não estão a soldo daqueles veículos de comunicação
formando um oligopólio de seis famílias no Brasil. Mas outro aspecto curioso
sobre como os membros da Lava Jato não se dão conta dos próprios desmandos
processuais fica claro quando exaltam o fato de 95% dos atos de Moro terem sido
confirmados na instância superior. Ora, a literatura nos permite constatar que
em média as decisões de um juiz de primeiro grau costumam ser revistas à razão
de 40% dos casos quando estes vão ao segundo grau. A quase unanimidade a favor
dos atos de Moro é que dá a este juiz o status de Savonarola, Torquemada,
Robespierre. Moro ajuda o Brasil a mergulhar no perigoso abismo de uma
democracia de exceção, vulgo ditadura judicial. Não é por outro motivo que
Cerqueira Leite acusou Moro na Folha de SP de ser juiz "absolutamente
parcial a serviço das classes dominantes".
DALLAGNOL
E MARTELLO - Alega-se também que as investigações são partidárias. Outro
disparate! Além de as equipes de procuradores, delegados e auditores terem sido
formadas, em grande parte, antes de se descobrirem os crimes na Petrobras,
trata-se de dezenas de profissionais de perfil técnico, sem histórico de
vínculo político.
A alegada
perseguição é o mantra da defesa política quando a defesa jurídica não
prospera.
Verdade
que os partidos mais atingidos na Lava Jato são PT, PP e PMDB. No Supremo,
dentre os 17 políticos acusados, 9 são do PP, 4 do PMDB, 3 do PT e 1 do PTC.
Contudo,
isso não ocorre por escolha dos investigadores, e sim porque as indicações de
dirigentes de órgãos federais se dão pelo partido no poder ou sua base aliada.
Assim, os cargos de diretoria da Petrobras foram ocupados por essas legendas, e
não pela oposição ao governo petista.
AH – E é um
disparate produzir uma coletiva e chamar Lula de comandante da grande
organização criminosa porque há convicção, e não provas, tenho ilações, não
provas. Membros da Lava Jato lá em meados de 2014 atacavam violentamente nas
ferramentas sociais a Dilma e o Lula. Os lançamentos de fase e os vazamentos
seletivos em datas seletivas. O uso das sextas-feiras para pegar a repercussão
nos jornais dominicais e no programa Fantástico. E as fases das operações
policiais em dias especiais, coincidindo com momentos em que rolava uma péssima
notícia para os golpistas. Mesmo que não queira ser golpista, a Lava jato foi
de fato o grande instrumento para o golpe do impeachment. Embora o PSDB como
oposição tenha perdido seu poder de indicação, manteve alguns feudos. Todos em Brasília
sabem que as empreiteiras são as mesmas nos negócios com o Poder Executivo
Federal e com o Poder Executivo do Estado de São Paulo. A `Lava jato tem duas
seções principais, a curitibana em torno da Petrobras, e a brasiliense com
Janot com seus réus e suspeitos dispondo de foro especial. Moro é
supervisionado primeiramente pelo TFF-4 e eventualmente pelo STF. Janot, apenas
incidentalmente por Teori e logo pelo pleno do Supremo. Todas essas instâncias
parecem contaminadas pela ideia de que excessos não são tão excessivos assim.
Perderam a noção de isenção. Tornaram-se globais.
DALLAGNOL
E MARTELLO - O ataque mendaz à credibilidade da Lava Jato e dos investigadores
tem um propósito. Prepara-se o terreno para, em evidente desvio de finalidade,
aprovar projetos de abuso de autoridade, de obstáculos à colaboração premiada,
de alterações na leniência e de anistia ao caixa dois.
AH - Nem todo
ataque à Lava jato é mendaz. Mendaz talvez seja o de parlamentares golpistas
tentando estancar a sangria, derrubar a mulher com metralhadora Ponto 50 e
parar porque não escapa um de nós. Mas a credibilidade da Lava Jato sempre foi
muito mais um caso de campanha midiática do que de reconhecimento por parte dos
brasileiros mais bem informados. Sim, está em curso nas hostes dos golpistas
hoje no Poder projetos contra abusos nas investigações, algo que pode ser visto
sim como estancar a sangria. Mas para além dos interesses pessoais de alvos
potenciais das investigações contra a corrupção, é fundamental estancar os
abusos que Moro vem cometendo diuturnamente desde 2014. A prisão de Eduardo
Cunha foi um abuso. A prisão de Delcidio pelo Supremo foi também um momento
desgraçado em que a mais alta corte desfraldou a bandeira da sua
inconstitucionalidade, estuprou a Cidadã, inventou um inexistente crime em
flagrante continuado. Sim, a repatriação e a anistia ao dinheiro do Caixa 2 são
as duas faces da mesma moeda chamada impunidade para os que derrubaram Dilma,
querem destruir o legado de Lula e ainda trazem o dinheiro lavado lá nos paraísos
fiscais mediante pagamento de alguns impostos e recebimento de perdão e
certificação de que o produto do crime é coisa nossa. Os parlamentares vão usar
subterfúgios para aprovar uma anistia sem usar este nome anistia.
DALLAGNOL
E MARTELLO - O Brasil, quarta nação mais corrupta do mundo segundo ranking do
Fórum Econômico Mundial, está numa encruzilhada.
Se forem
aprovados projetos como os mencionados, seguiremos o caminho da Itália, que,
nas palavras de um procurador da Mãos Limpas -operação da década de 90
semelhante à Lava Jato-, lutou contra a corrupção, mas perdeu.
O Brasil,
porém, pode seguir os passos de Hong Kong, nos anos 1960 considerado o lugar
mais corrupto do mundo. Após um escândalo na década seguinte, realizaram-se
reformas e, hoje, é o 18º país mais honesto no ranking da Transparência
Internacional (o Brasil está na 76ª posição).
A
história do Brasil é também uma história de fracassos na luta contra a
corrupção. Casos como Anões do Orçamento, Marka Fonte-Cindam, Propinoduto,
Banestado, Maluf, Castelo de Areia, Boi Barrica e tantos outros caíram na vala
comum da impunidade.
A
corrupção tem alto custo ao país. Temos de fechar essas brechas por onde
escapam os ladrões e o dinheiro público.
Alterações
legislativas, como a reforma política e as dez medidas contra a corrupção,
sanam problemas estruturais e podem nos pôr no rumo de Hong Kong, o que
recomenda seu debate, aperfeiçoamento e aprovação pelo Congresso.
AH - O Brasil é
muito mais parecido com a Itália do que com a China. Nem entro no mérito dessas
comparações. Mas de novo a dupla de procuradores parece uma dupla de deputados
dizendo que temos de fechar as brechas dos ladrões da grana pública. Mas as dez
medidas contra a corrupção por eles propostas como uma iniciativa popular
enfeixam um descalabro. Quando mais abusam das leis, mais querem abusar. Já
circulam bons estudos de juristas esmiuçando as dez medidas, quase todas
esbarrando em preceitos constitucionais.
DALLAGNOL E MARTELLO - É importante, ainda,
incentivar controles sociais e que os cidadãos, bem informados, repilam os
políticos desonestos pelo voto. É impossível reduzir o nível de corrupção a
zero, mas estamos no polo oposto. A grande corrupção tem de ser extirpada para
surgir um Brasil competitivo, inovador, igualitário, democrático, republicano
e, sobretudo, orgulhoso de si. A
sociedade tem de reagir. Parafraseando Martin Luther King, estamos rodeados da
perversidade dos maus, mas o que mais tememos é o silêncio dos bons.
AH - E parafraseando José Louzeiro em Lúcio
Flávio: Bandido é bandido, polícia é polícia, ou procurador é procurador,
político é político. E já que falaram em Luther King, eu também tive um sonho,
sonhei que o Brasil vai acordar desse pesadelo de uma justiça partidarizada,
uma justiça que é tão cruel para o país quanto o racismo. Bem, e de nada
adiantaram as advertências quase mensais que a CNBB fez desde o início de 2015
emitindo notas com esta advertência: justiça que promove investigação seletivamente
produz crise política e ameaça a democracia. Estamos nesse universo que lembra
os primórdios da ascensão dos nazistas com o então popular juiz Roland
Freislers travando uma cruzada contra corruptos e esquerdistas no início,
depois contra judeus e meio mundo. De boas intenções o inferno está cheio.
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